Guilherme Bonfanti | Processo de Iluminação da Caixa Preta

Processo de Iluminação da Caixa Preta

PROCESSO DE ILUMINAÇÃO DA CAIXA PRETA NO PALCO DO CCA VISTA ALEGRE
O levantamento

Por: Roberto Gil Camargo

O levantamento de matérias, a construção de equipamentos exclusivos, expectativas versus resultados e
imagens dos processos até a apresentação em Junho de 2019.

 

 

ESTUDOS DE ILUMINAÇÃO
Desenhos, anotações e ensaios

 

A proposta de iluminar os espetáculos não surgiu do acaso. Na verdade nem existia essa hipótese de início. Foi acontecendo no decorrer de um convite para lecionar teatro para as crianças do CCA Vista Alegre (Centro de Convívio para crianças e Adolescentes), no bairro de Brasilândia, em Novembro de 2018. Minha sugestão era propor que além delas aprenderem a as técnicas teatrais, também pudessem vivenciar se apresentar num teatro, mesmo que seja adaptado. E como já existia um palco no CCA era só aproveitar o espaço para isso. Mas o palco não tinha a infraestrutura necessária, pelo menos como eu gostaria. E como já haviam apresentações temáticas propostas pelas educadoras e a CCA, gostaria de aprofundar mais a vivência das crianças no teatro. Foi aí que a ideia de criar e levantar a ‘caixa preta’ do teatro e junto colocar iluminação e áudio para as apresentações.

 


Palco do CCA Vista Alegre, aonde foi o espetáculo.


Palco do CCA Vista Alegre, aonde foi o espetáculo.


Palco do CCA Vista Alegre, aonde foi o espetáculo.


Planta do local (palco da CCA Vista Alegre).

 

Como a diretora do CCA, Olivia, já tinha me orientado que não havia verba suficiente para comprar equipamentos, já coloquei em pratica o plano B. Mas o básico eu precisava para pelo menos apresentar algo para as crianças.
Fui várias vezes na Sta Efigênia custear equipamentos e materiais. Era ótimo me inspirar nas lojas vendo tudo de iluminação. Até tinha pensado em colocar fita de LED em tudo, mas não causaria o mesmo efeito dos refletores de teatro para as crianças.


Lista de materiais sugerida.


Estudos para iluminação do espetáculo no espaço.

 

E dei início à montagem de algumas estruturas de madeira e para a iluminação algumas extensões para ligação dos ‘spot latas’. Tudo sendo feito nos intervalos de aula no CCA. Até levei para casa os cabos que precisariam de mais tempo para fazê-los, mas a maioria dos equipamentos foram feitos no local. Mesmo porque eu precisava das medidas exatas para não sobrar materiais. Na verdade, faltou. E como a diretora não havia mais verba para comprar o restante que faltava, tive que arcar com isso. Que bom que o quê faltava era barato! Plugues e parafusos.
E já com algumas ideias caminhadas e sendo produzidas ao decorrer das aulas que começaram a surgir equipamentos específicos e até mesmo já produzidos e não usados, ainda. Dentre elas, aqui já falado, o ‘spot lata’, refletor montado na estrutura de lata, aqui fabricado por mim em latas de 900ml de leite, extensões e conexões para iluminação e suportes como o ‘super sargento’, e mesa de luz, chamado carinhosamente pelos iluminadores de ‘pianinho’, que foram montados para os experimentos na SP Escola de Teatro mas alguns nem utilizados ainda. E foi aqui, no espetáculo de conclusão do 1º semestre de 2019, que finalmente foi usado.

 


Estudos das extensões necessárias para o espetáculo.

 

SUPER SARGENTO
Como surgiu e sua feitura

 

O ‘super sargento’, a grande garra que se prende por pressão, surgiu no Módulo Vermelho na SP Escola de Teatro, no 2º semestre de 2018, período vespertino. Como os experimentos do nosso Núcleo 5 foi no espaço Auditório da unidade Brás, e lá não haviam varas para colocar refletores no teto, minha sugestão era colocar uns 3 ‘sargentos’ qualquer para pendurar refletores leves, como PAR38, para a iluminação frontal do espetáculo. Por sugestão das diretoras de nosso Núcleo nossa apresentação seria na plateia e não no palco. Daí a necessidade do tal aparato. Então resolvi montar pois comprar os ‘sargentos’ eram caros e a verba que a SPEDT disponibilizava para os materiais de experimentos é pouco.
Mesmo assim o fiz, mas não houve tempo hábil para usá-lo no experimento pois não tinha terminado e testado, faltando alguns ajustaste. Mesmo assim não desisti.

 


Estudos (2018).

 

Eu já tinha uma ideia de como montar, pois, pesquisei na internet seu formato e também já tinha visto em casas de ferramentas. Não era tão complicado assim. Precisava ser funcional, resistente e versátil. Tinha que ser especifico para esse tipo de funcionalidade, daí veio a ideia de ser de madeira. Precisei estudar que tipo de madeira iria suportar tanto a pressão da barra rosqueava de ferro como os refletores sem cair no meio do espetáculo. Precisava ser grande e robusto. Não quis me ater tanto nas medidas exatas dele mas queria que tivesse simetria.

 


Cortes e medidas para montagem do ‘super sargento’.

 


Imagem feita no Masp, numa visita que fiz.

 

Mesmo não usando no experimento resolvi guardar para testar em outro momento na própria SPEDT. Lembrando que a cada semestre os experimentos ocorrem em determinada unidade. Agora quando escrevo estou no módulo verde, meu 2º semestre de 2019, e apresentei os novos experimentos na unidade da Roosevelt aonde temos várias salas de apresentações com toda a estrutura de luz necessária. Se fosse usar o ‘super sargento’ seria somente no módulo amarelo, na unidade do Brás.


Estudos para fixação em uma das colunas do espaço de apresentação.

 

Não desistia de querer testar. Daí surgiu a oportunidade na apresentação dos alunos no CCA Vista Alegre. E, claro, iria ser usado lá. E o aparato foi modificado para se adaptar na coluna do refeitório, aonde estava o palco, sem danificar, machucar e nem produzir buraco. Foram acrescentados uns ‘braços’ no sargento para que eu não perdesse luminosidade e ângulos que precisava para melhor aproveitamento.

 


Adaptação do ‘super sargento’ para apresentação.

 

Meus dias e horários na CCA não eram tão flexíveis para testar variações de melhor desempenho do aparato. Então eu pensava nessas melhorias no mêtro, indo para dar aula às crianças. Para que quando eu chegasse lá e o montasse já otimizaria na montagem geral da ‘caixa preta’. Mas foi no dia da apresentação deles, de levantar toda a estrutura da ‘caixa preta’ do teatro no CCA, que percebi que montar deste jeito era o mais funcional e útil para aquele momento! Surgiu no dia esta forma de pendurar os ‘spot latas’ na coluna que ficava na frente do palco, como mostra a imagem abaixo:


‘Caixa preta’ no CCA Vista Alegre (29/06/2019).

 

E este foi o resultado de como o ‘super sargento’ de madeira foi modificado e pendurado na coluna frontal do palco. Já com os ‘spot latas’ fixados e ligados:


Colocado na coluna que fica em frete ao palco.

 


Vista de ângulos diferentes para entendimento do encaixe na coluna.

 

SPOT LATA
Como surgiu e sua feitura

 

Como gostaria que as crianças mergulhassem no universo do teatro, ser iluminado em cena foi uma das propostas sugerida para a diretoria do CCA. Neste momento comecei a estudar tipos de lâmpadas e refletores que não criasse desconforto para eles, já que os refletores convencionais de teatro produzem muito calor, o brilho gostaria de manter. Sugeri as lâmpadas de LED, de cor quente. Dessa maneira já se aproxima do brilho de um refletor de teatro convencional. Pelo mesmo era isso que eu gostaria que as crianças experimentassem também.
Refletores de médio porte era mais adequado, pois o espaço aonde as crianças apresentariam não tinha um pé direito alto (em torno de 2 metros) e o palco era pequeno, muito próximo do público também.
Comecei a cotar os melhores preços de uns refletores de PAR38 no site do MercadoLivre e também na Rua Santa Efigênia. A diretora da CCA não podia arcar com esses valores e já comecei a pensar em outras possibilidades. Nas pesquisas de tipos que surgiu, num vídeo no YouTube, um rapaz que construiu um spot com lata de leite de 900ml. No vídeo ele ensinava passo-a-passo na construção do refletor com uma lâmpada incandescente.

 


Imagem retirada da internet e editada.

 

Numas das aulas na SPEDT perguntei para uma orientadora que estava explicando sobre tipos de refletores se esse refletor que eu gostaria de montar era viável e prático. Foi daí que escutei pela primeira vez o termo de ‘spot lata’. E comecei a chama-los assim e explicar para todas as crianças que eu precisaria que tomassem bastante leite para poder levantar o máximo possível de ‘spot latas’ para nosso espetáculo.
Fiz este primeiro refletor como teste para entender quanto tempo demoraria para fazê-lo, que tipo de materiais eram necessários e quais os valores dos acessórios o ‘spot lata’ precisaria. Neste momento percebi que não era tão complicado assim. Esteticamente ficou bonito, além de leve e versátil.

 


Protótipo 1.


Protótipo 1.

 

Pelo menos foram compradas 10 lâmpadas. Depois de montados os ‘spot lata’ coloquei a lâmpada LED de 18W que chegava a ter uns 110W de uma lâmpada incandescente, tendo um ótimo brilho e não esquentava. Deu certo. Como eu já tinha noção de quantos materiais iriam para cada refletor iniciei os trabalhos para a fabricação em série. Nesse momento comecei a produzir os 9 ‘spot lata’ restante, e já levei para minha casa as latas que as educadoras já tinham separados para mim.


Montagem dos ‘spot latas’ em casa.

 


Montagem dos ‘spot latas’ em casa.


Montagem dos ‘spot latas’ em casa.

 


Montagem dos ‘spot latas’ em casa.

 

Os acessórios usados em cada refletor são: rosca borboleta, rosca, barras de alumínio de 2cm de largura por 2mm de espessura, fio paralelo 1,5mm com 60cm branco, tomada macho, arruelas, lâmpada led PAR38 de 18W e 4000k, soquete de abajur de teto com entrada em rosca.
Pensei que iria demorar para montar, mas não foi. Em 2 horas nasceram os 9 ‘spot latas’. Não tinha as lâmpadas de LED para testar todos, então o fiz com uma lâmpada incandescente que eu tinha no momento.
E quando cheguei no dia seguinte com os refletores no CCA já montei todos os refletores com as lâmpadas de LED e testei a fiação que seria usado no espetáculo também. Tudo foi montado na mesa de luz que eu produzi, não para este espetáculo mas para o experimento anterior na SPEDT.
O teste foi no horário em que as crianças não estavam no CCA, e não mostrei à eles para não perderem a surpresa na hora da apresentação com a iluminação. Para algumas educadoras que estavam lá em horário de almoço fiz a ligação e expliquei como seria a montagem e ligação na ‘caixa preta’ do teatro.

 


Sala de aula de teatro no CCA Vista Alegre.

E aqui já estão colocados e testados na ‘caixa preta’ do teatro CCA Vista Alegre:


‘Caixa preta’ no CCA Vista Alegre.

‘Caixa preta’ no CCA Vista Alegre.

‘Caixa preta’ no ‘Caixa preta’ no CCA Vista Alegre.

 

‘PIANINHO’
A mesa de luz artesanal

Como surgiu e sua feitura

 

O “pianinho”, nome dado pelos iluminadores tanto da SPEDT como fora da instituição, foi confeccionada para o 3º Experimento do Módulo VERMELHO, 2º semestre de 2018. Numa das aulas na SPEDT, na unidade do Brás, vi algumas pequenas réguas manufaturadas em madeira com tomadas. Muito simples mesmo. Foram elas que me ajudaram a entender como seria a construção da minha mesa de luz.


Confeccionado pelos alunos da SPEDT.

 

Como o CCA Vista Alegre não tinha equipamentos de iluminação, e a diretora não podiam bancar essa infraestrutura, resolvi fazer por conta com o máximo de aproveitamento dos materiais que eu tinha. O espaço de apresentações de música, dança e teatro que as educadoras desenvolvem com seus alunos não precisam deste tipo de infraestrutura, mas como prometi não só para eles, mas também para a diretora, tinha que cumprir. Comprar só para as apresentações de teatro, sendo que só eu sei usar esse tipo de equipamento, não valeria a pena. E como eu já tinha a mesa de luz que fiz para as apresentações de Experimentos da SPEDT e era minha, levei para o CCA.
A medida que levantei os materiais para este relatório pensei em não mostrar a mesa de luz aqui, mas como fez parte da apresentação dos espetáculos e me salvou na hora de iluminar as cenas, já que o CCA não iria comprar uma mesa, resolvi apresentá-lo sim. Uma forma de mostrá-lo não só em uso mas como surgiu, desde a SPEDT. Também contar como foi feita, desde os desenhos nos cadernos de anotações nas aulas de iluminação até o processo de feitura. Esta mesa de luz não foi levantada, exigindo vários dias para pensar quais tipo de materiais comprar e aonde. Fora os infortúnios que apareceram como testes mal sucedidos e perda de material. Sim, queimei algumas tomadas e até 2 potenciômetros que me custaram caro. Além de cair a força no quadro de luz da própria SPEDT, no Bras.


Caderno de anotações das aulas da SPEDT.


Caderno de anotações das aulas da SPEDT.

 


Desenho feito a mão no app EVERNOTE.

 

E aqui foi a primeira vez que usamos a mesa de luz, já testada e até com ‘pés’ para deixar numa altura confortável de operação. Não fiz a operação de luz nos experimentos pois deixei minha parceira fazê-lo: não tinha acompanhado os ensaios pois estava confeccionando os materiais necessários para a nossa apresentação. Ela sabia a sequência e decidimos comumente que seria assim.


Marina Veneta no ensaio do Experimento do Núcleo 4, módulo VERMELHO. 2018.

 

E aqui o ‘pianinho’ testado e aguardando os alunos para as apresentações.


Preparativos antes da apresentação no CCA.


Preparativos antes da apresentação no CCA.


Imagens do ‘pianinho’.

 

EM CENA
Algumas imagens dos espetáculos

Resultado da iluminação


 

EXPECTATIVA E RESULTADO

Eu já sabia que não teria todo o material que imaginava para realizar a iluminação que esperava. Para viabilizar tal façanha que propus realizar seria melhor eu fabricar/levantar tudo. Esse raciocínio aconteceu uma semana depois que entrei para trabalhar lá, em Novembro de 2018. E como ainda não tinha esquematizado de como eu iria fazer e produzir os equipamentos foi difícil convencer a diretora do CCA confiar no que eu propunha. Ela não me impedia de já pesquisar valores e armazenar os materiais que eu precisava, mas não imaginava como transformar o palco que eles tinham num teatro. E olha que desenhei no ar para ela o que seria a ‘caixa preta’ e a iluminação. Não esqueço das caras de interrogações que ela fazia. As ideias brotavam em nossas reuniões sobre isso e em cada momento que nos encontrávamos no refeitório. Estava claro para mim que daria certo, só precisava de tempo e os materiais.
Até tentei desenhar em cadernos e papeis algumas ideias, mas foi fabricar as coisas que comecei a ver as possibilidades de resultados que eu esperava. Isso marcou muito no processo da estrutura do teatro, da ‘caixa preta’. E também foi a primeira coisa que levantei. As ideias inicias do que eu realmente queria foram se adequando para minha realidade. E como eu não tinha tempo suficiente para fazer tudo, por conta dos trabalhos e dos estudos na SPEDT, tive que simplificar muitas coisas. Foi aí que comecei a ficar preocupado com a iluminação. Será que terei tempo hábil para montar tudo que eu preciso de luz? Claro que no mundo das ideias tudo funciona e dava certo, mas nada como colocar a mão na massa mesmo e ver se o que eu tinha em mente funcionava.
Meus dias no CCA eram de terças, o dia todo, aonde até faltava na SPEDT por conta disso. E era só nesse dia que eu tinha como aproveitar para medir, desenhar, ver e estudar a melhor de levantar tudo. Foi um grande desafio inicial, mas fiquei muito contente com o resultado final. As ideias e propostas no começo não foram tão modificadas assim no final.
Até mesmo no dia das apresentações das crianças, que foram duas, uma para a turma da manhã e outra para a turma da tarde, foram significativas. Elas se encantaram pela atmosfera de um teatro. Todas, sem exceção, estavam nervosas antes da apresentação. E eu também. Foi aí que minha expectativa foi além do esperado. Ver a alegria de todos os funcionários, que pararam tudo que estavam fazendo para assistir, a felicidade dos poucos pais que aparecerem e a diretora que estava com sorrisos largos o tempo todo foi uma grande satisfação e alegria. Ver que todo o perrengue que passei não foi em vão. Também não contive a emoção de receber o carinho de cada aluno me agradecendo por transformar algo na vida deles. E de quererem continuar nos estudos, me dando motivação para continuar e melhorar cada vez mais as aulas e a percepção da importância das artes em nossa vida.

 

 

Download do projeto

 

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