Guilherme Bonfanti | Light Designer, ser ou não ser?

Light Designer, ser ou não ser?

A questão da formação e manutenção da profissão

Quem somos, de onde viemos, há quanto tempo existimos, como nos mantemos, em que área atuamos? Estas perguntas me formaram e me movem até hoje quando penso na formação dos jovens profissionais da área.

 

Desde cedo me movi no sentido de ensinar, compartilhar, trocar. Aprendi nos anos 70, período da ditadura militar, dos livros encapados escondidos embaixo da cama, das conversas em lugares sigilosos, dos trabalhos de teatro nas periferias paulistanas, das portas de fábricas do ABC, do Estádio da Vila Euclides em São Bernardo do Campo. Nesse ambiente aprendi que o conhecimento deve sair de você e ganhar seus iguais, se expandir para além daqueles que conseguem ler, estudar, pensar, refletir. Ser um ato de contaminação, cooptação, de fazer a roda se abrir e se ampliar. Um grupo pequeno sozinho nada consegue, devemos buscar trazer muito mais gente para pensar e romper com o estado das coisas, da opressão, da supremacia branca, machista, homofóbica, racista, social, econômica e todos os outros possíveis tipos de discriminação.

 

Foi nesse contexto que me formei e aprendi a ver o teatro e pensar seu lugar na sociedade. De lá para cá muita coisa mudou. Essa experiência acabou, eu me migrei para o teatro profissional e no meio do caminho conheci Antonio Araujo. Junto com ele, e outros artistas, formamos e tocamos até hoje o Teatro da Vertigem, um lugar em que vi a possibilidade de seguir com minhas ideias, com meus desejos de transformação e de formação para jovens que não tem perspectivas. Digo isso pois são colocados em uma posição de subserviência, tiram-lhes a possibilidade de criar suas próprias condições de vida ou de ver na arte um caminho de libertação do destino proposto pela sociedade capitalista.
Nesse segundo contexto, anos 90, me vi tentando entender o que poderia ser/fazer com relação ao teatro profissional. Entre tantas possibilidades que o teatro me apresentava acabei percebendo na iluminação o meu caminho. Difícil iniciar uma trajetória nesta profissão. Afinal, trata-se de uma profissão? Posso viver disso? Mas como me formar, onde estudar, onde trabalhar? São questões que surgem para mim nesse momento.

 

Aqui uma das questões que tem se colocado no meu trabalho de formação aparece como possibilidade única: a prática. Fui lançado a ela, sem conhecimento e preparo. Aprendendo aos poucos e diretamente dentro da profissão (sim, é uma profissão). Espetáculos, montagens, operações e emprego fixo em uma empresa de iluminação, a Bonfante Iluminação Cênica, foram minha formação técnica. Algo muito comum à minha geração. Mas uma formação que deixa lacunas, buracos, vazios. Aprendemos a manipular os equipamentos, a conhecê-los, passamos a aprender alguma coisa sobre elétrica, a utilizar filtros e mesas de controle. E olhando aqui e ali vamos criando um repertório estético. Em lugar nenhum, nesse tipo de trajetória, nos deparamos com a questão da estética da luz, da história do teatro, da história da arte ou questões como os porquês do uso disso ou daquilo, que elementos trazem novas camadas de significado, ou somente reforçam os signos ali colocados: a questão conceitual não se discute em nenhum momento. Creio que, nesta perspectiva, somos técnicos que dominam os equipamentos e que transitam pela estética e pelos conceitos de uma maneira ainda muito intuitiva.

 

Assim foi comigo e assim segue sendo com boa parte dos profissionais que entram na iluminação. Aí se coloca a diferença, tanto da formação, quanto dos possíveis papeis dentro da iluminação – técnicos e light designers. Não se trata de uma divisão pretenciosa, de uma função ser melhor que a outra, pois considero de importância vital a presença de técnicos no desenvolvimento de um projeto de iluminação. Mas se trata de tentarmos entender o papel de cada um e o que seria uma formação adequada para cada um.

 

Lido com essa formação há sete anos na SP Escola de Teatro, tentando entender até onde vai a formação na Escola e o quanto dela deve se completar fora dali. Penso isso a partir de minha formação, que me lançou de cara na prática. Qual o papel do ensino formal de iluminação e até onde ele deve ir?

 

A prática me colocou diante dos equipamentos e de questões que foram me fazendo avançar, entendendo o uso pelo uso, e vendo que diferentes situações exigiam diferentes soluções, mas sem ter consciência dos porquês (conceito e estética). Minha experiência foi me prendendo em um saber limitador e amedrontador. O que eu sabia e dominava me fazia entrar em um campo de repetição, de segurança, e os avanços eram sempre muito lentos. Ao me deparar com um profissional que me exigia novos procedimentos, aí vinha um salto no conhecimento, mas sempre empírico e de certa forma limitador. Ao se iniciar uma trajetória pela prática do teatro, seu repertório artístico fica restrito aos diretores que tem pela frente, ao espaço ao qual está vinculado. Se você inicia por uma determinada empresa, corre o risco de ficar preso a um segmento, como corporativo ou de música sertaneja. Aí seu repertório estará sempre vinculado a todas as novidades tecnológicas existentes no mercado. O espetacular, o excessivo, seja no movimento ou na quantidade de equipamentos, serão os parâmetros de um bom trabalho: de novo nossa dupla, conceito e estética, estará esquecida.

 

A partir do momento que me vi como um pedagogo da iluminação (me desculpem a prepotência) comecei a perceber que o aprendizado pela prática leva a ter certa destreza no uso dos equipamentos, certa prontidão para achar soluções e parece tirar o medo de errar – ainda que isso ocorra de maneira não premeditada, como julgo ser necessário para um criador. Mas aqui ainda falamos de um mix de profissional, aquele que sabe a técnica e intui a criação ou é obrigado a lidar com ela. Sendo assim, nesse momento começo a crer que o ensino formal nos ajuda a ampliar esse conhecimento, a ter controle sobre ele, a entender e aprofundar o uso dos equipamentos, a ganhar repertório técnico.

 

Desde cedo passei a ensinar, sempre dentro dos processos do Teatro da Vertigem. Estes, pela própria natureza do trabalho, colocavam questões muito particulares, como espaços muito difíceis tecnicamente, espetáculos que transitavam por diversas disciplinas das artes – cinema, artes plásticas, música – e uma profunda discussão sobre a própria linguagem do teatro. Nesses processos a técnica sempre se colocou como fundamental, e eu me via, então, satisfeito com o ensino da iluminação e com a formação. Também aprendi a importância da pesquisa, seja dos materiais utilizados, seja das próprias questões trazidas pelo tema/texto a ser montado. Isso despertou em mim a necessidade de me colocar como artista, de ter algo a dizer que se percorresse meus diferentes trabalhos, um projeto artístico pessoal. Pelo Vertigem passaram uma dezena de profissionais, hoje técnicos e Light Designers com carreiras solidas na área, mas pude perceber que a diversificação de minhas experiências em luz foi ajudando nessa formação. Transito pela área de shows, dança, música erudita [óperas, concertos], exposições, moda, arquitetura. Estaria aqui, nessa diversificação, a riqueza da formação de um profissional da luz? Deveríamos então pensar que um curso de formação para Light Designers deveria transitar por diversas áreas e não ficar restrito à linguagem do teatro?

 

Quando fui convidado para fazer parte do projeto da SP Escola de Teatro pude colocar no papel o que seria para mim um curso de iluminação focado no teatro. Contudo, não me contive e ampliei o ensino para além do teatro, para as outras áreas da iluminação cênica. Na minha matriz (salve Paulo Freire que nos libertou do termo “grade” de nosso vocabulário) e nos meus componentes (fora com a palavra “disciplina”, viva a desobediência) trouxe alguns dos elementos que ao longo de minha trajetória e minhas reflexões foram se mostrando importantes na formação.

 

Se eu critico o caminho da pura prática, um aprofundamento na área da estética e da questão conceitual seria necessário para lidar com estes temas. Vejo, hoje, no estudo formal a necessidade de lidar com essas questões. Portanto, “Educação do Olhar” foi o nome dado à estética em minhas propostas. Esse componente tentava abarcar o cinema, a poesia, a literatura e as artes visuais. Pensava eu em um curso que formaria Light Designers. O pensamento conceitual tornou-se “Orientação Teórica” e aqui tratávamos de discutir o teatro e sua linguagem. Trouxe para trabalhar comigo Antonio Duran, que criou uma sequência de encontros em que discutia encenadores e teóricos do teatro, fazendo assim uma espécie de História do Teatro, sem ser cronológica. Tratava-se também de discutir temas para aquele Módulo (o que numa escola tradicional seria o semestre) como performatividade, narratividade, personagem e conflito, assim como os assuntos: a própria cidade e seus personagens, a homofobia, o machismo e o papel da mulher na sociedade, o racismo, a leitura da imagem, a distopia e outros tantos temas que nesses seis anos foram levados à cena.

 

Nesses dois componentes eu tentava dar conta do que percebia ser mais falho em uma formação que tinha na prática sua principal condutora. Tentava fazer com que a formação se ampliasse para além do próprio teatro, mas do ponto de vista teórico, que considero o mais falho de quem vem da prática. A teoria me parece acrescentar a reflexão, a crítica e o aprofundamento à uma proposta de luz. Contudo, me parecia que isso ainda não era suficiente para abarcar toda minha experiência como profissional da luz e me parecia não proporcionar aos futuros profissionais uma experiência suficientemente rica para sua formação. Faltava introduzir minha própria matriz de trabalho- a pesquisa como procedimento para a criação – e as outras áreas que se utilizam da iluminação para conseguir diversificar o conhecimento específico. Acrescentei então a pesquisa de materiais e ampliei a discussão do repertório dos “equipamentos” possíveis para se iluminar a cena, com a colaboração de alguns artistas que vieram propor trocas (Lucia Koh, por exemplo, e o uso da luz natural em seus trabalhos). Outros artistas foram importantes no compartilhamento de suas práticas trazendo seu conhecimento na área de Dança, Ópera, Arquitetura, evento corporativo e shows.

 

Aliado a tudo isso, a escola tem, como parte de suas proposições pedagógicas, a formação de núcleos de trabalho para montagem de cenas. As relações de trabalho com outras áreas teatrais (ética e colaboração) podem trazer à tona mais questões importantes para a formação. Como lidar com os profissionais das outras áreas? Que tipo de relações devo estabelecer? Como pensar a ocupação do mesmo espaço em períodos de montagem? O trabalho prático coloca diversas questões que podem ser problematizadas e estudadas. Surge a necessidade de um cronograma de trabalho, de um planejamento e da prévia produção de nossos equipamentos.

 

Todas estas questões foram sendo colocado no curso: o trabalho do Light Designer deve abarcar questões ligadas ao artístico, mas também à técnica e à produção de seu próprio trabalho. A informalidade da formação, em todas as áreas do teatro, faz com que, frequentemente, não tenhamos uma produção técnica adequada e termos domínio do processo do início ao fim se torna fundamental, além de romper com a lógica da linha de produção (novamente a contraposição ao capitalismo, tão presente em minha formação) que nos aliena do todo, dominando somente uma parte do processo.

 

Assim com todas as questões colocadas até aqui, com uma tentativa de olhar para a minha trajetória e para minha própria formaçãode de forma mais crítica, o trabalho na SP Escola de teatro me faz aprofundar no que seria melhor para formar profissionais de iluminação. Pude encontrar algumas respostas para as questões que me moviam e ver que era possível ensinar e formar Light Designers.

 

Em 2014, Antônio Araujo, a convite do Villes em Scène, estreia com o Teatro da Vertigem o espetáculo “Dizer o que você não pensa em línguas que você não fala”, com apresentações na Bolsa de Valores de Bruxelas e no Hôtel des Monnais de Avignon. Essa experiência de trabalho tem um forte impacto em mim, principalmente na lida com os técnicos europeus. Por mais que não tenham a prontidão e capacidade de adaptação dos técnicos de luz brasileiros, possuem uma formação e um domínio de seus equipamentos que é excelente. Saio desse trabalho disposto a aumentar o espaço da técnica dentro do curso, por entender que seu aprofundamento é fundamental na formação de profissionais que vão atuar no mercado brasileiro.

 

Em seis anos muita coisa mudou na SP Escola de teatro. O ensino foi sofrendo mudanças, além da crise financeira que nos pegou em cheio. Existe uma inquietação muito grande de todos os envolvidos de não cristalizar o projeto político-pedagógico criado no início. A prática acabou adquirindo um status muito maior do que tinha no princípio, o que nos fez mudar um pouco o equilíbrio entre teoria e prática. Finquei mais o pé mais na formação de técnicos que transitam pela criação do que propriamente na formação de Light Designers. Meu projeto inicial teve que se adequar à nova maneira de a Escola olhar para a formação. Essas mudanças não invalidam as reflexões aqui colocadas, pois penso que a formação de um Light Designer deve passar por todas as etapas colocadas acima, e deve acontecer em um tempo estendido. Pude perceber que seria impossível formar esse profissional, mas sim dar preparo para um técnico com um preparo amplo e consistente, além de apontar os caminhos para se tornar um criador. Analisando, creio que minha proposta inicial de matriz atendia muito mais à formação desse profissional, enquanto que a atual está voltada muito mais para habilitar um técnico.

 

Hoje percebo que é necessário mais tempo para formar um Light Designer: dois anos tem se mostrado insuficientes para tantos temas que deveriam abarcar um curso que tem esse objetivo. Focamos mais na formação técnica. Acho possível formar um técnico em dois anos.

 

Volto ao início e vejo que meu desejo de formação de um Light Designer requer tempo e a Sp Escola de Teatro, aliada à minha prática no Teatro da Vertigem, voltou a colocar no mercado profissionais que transitaram por todas as áreas antes de se lançar nessa aventura profissional. Contudo, com uma pequena diferença: aqueles que vem trabalhar comigo fora da Escola ficam em torno de 08 a 10 anos, um período muito mais extendido.

 

Concluo, se é que posso concluir algo em matéria de formação e pedagogia, que o tempo estendido é um grande aliado na formação de um Light Designer. Que 10 anos é um bom tempo para consolidar uma trajetória e podermos tomar consciência do nosso fazer. Alguns se perguntarão se não é muito tempo. Talvez, mas acho que as coisas que são feitas lentamente e se aprofundam tendem a durar.
Bem-vindos ao meu mundinho…

 

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