Guilherme Bonfanti | A Re-Construção do Espaço Através da Luz

A Re-Construção do Espaço Através da Luz

Fernanda Carvalho

Artigo escrito a partir da dissertação apresentada à Faculdade de arquitetura e urbanismo da universidade de são paulo para obtenção do título de Mestre em arquitetura e urbanismo

orientador: Prof. dr. silvio Melcer dworecki

 

Em 2011 concluí a dissertação de mestrado“a construção do espaço atra- vés da luz: uma leitura da obra de dan Flavin” sob a orientação do professor silvio dworecki, na Fau usp. o ponto de partida para esta pesquisa surgiu da necessidade de buscar modos de explorar o conhecimento que se tem so- bre a presença da luz no espaço que complementem o universo do design, de abordar a luz como elemento de construção da tridimensionalidade e de entender melhor sua relação com o observador. este artigo consiste em um breve resumo da dissertação, procurando despertar o interesse do leitor para novas leituras acerca das potencialidades espaciais da luz.

 
Após a pesquisa de diversas formas de utilização da luz, entre designers e artistas, decidimos fazer o recorte a partir de uma experiência na arte que julgamos rica o suficiente para proporcionar diversas visões deste fenôme- no e suas complexidades. o artista escolhido para uma leitura mais aprofun- dada foi dan Flavin, por percebermos que a riqueza visual e conceitual de sua obra nos permitiria uma leitura múltipla, levantando diversos aspectos importantes para a atividade do designer da Iluminação.

 
Aquela dissertação se organizou com o objetivo de realizar uma leitu- ra da obra de dan Flavin: em torno de 750 trabalhos realizados quase que exclusivamente com lâmpadas fluorescentes, com uma abordagem de inte- resse para a atividade do design da Iluminação. para tanto, foi necessário re- alizar a leitura da extensa obra do artista e do contexto da arte dos anos 60.

 
Dan Flavin (1933-1996) constrói espaços através do uso exclusivo de lâmpa- das fluorescentes. este é o aspecto de sua obra que mais interessa a este artigo.  a escolha de um único material emissor de luz e suas variações (cores, formas e tamanhos), portanto limitando-se tecnicamente, é uma atitude que impressiona ao descobrirmos a infinidade de poéticas e resultados luminosos alcançados.

 
Além de ser instigante a comparação entre a simplicidade do material utili- zado e a riqueza visual e poética atingida na obra de dan Flavin, a lâmpada fluo- rescente é um objeto que participa da nossa vida cotidiana. em casa, no trabalho, em lojas, estamos diante dos tubos de fluorescente e não os notamos. estamos constantemente envolvidos pelo espaço revelado por eles.

 
O interesse primeiro da construção do espaço através da luz se desdobra em diferentes aspectos que também participam do design da Iluminação, tais como: o comportamento da luz no espaço; sua comunicação com o homem-observa- dor; a utilização da lâmpada como objeto e sua disposição no espaço.

 
O designer da Iluminação conhece cada uma desses aspectos. o comporta- mento físico da luz emitida por fontes artificiais é conhecido através de uma série de parâmetros: fluxo luminoso, intensidade luminosa, grau de abertura do facho da fonte, temperatura de cor, reprodução de cor etc. Mas há um outro tipo de conhecimento sensorial que depende da experiência individual. é neste campo, subjetivo, não numérico e não mensurável, que a obra de Flavin nos coloca.

 
Flavin começou a usar a lâmpada fluorescente nua, desprovida de qual- quer alteração, como único material para sua obra em 1963 e continuou até sua morte em 1996. Foram 33 anos experimentando o comportamento da luz que emana do tubo luminoso. o artista partiu de um único material – a lâmpada fluorescente – em poucas variações: cinco formatos (quatro tamanhos de tubos – 61, 122, 183 e 244 cm e um formato circular), seis cores (pink, amarelo, vermelho, verde, azul e ultravioleta) e quatro tons de branco (morno, branco frio, luz do dia e branco suave).

 
Em cada uma de suas propostas, Flavin explorava o posicionamento da lâm- pada no espaço em vários aspectos: a posição da linha luminosa; a propagação da cor pelas paredes adjacentes e pelas paredes mais distantes; a gradativa di- luição desta energia pelo espaço; o impacto desta energia atingindo os olhos do espectador [imagem 1].

 
Além do interesse no objeto lâmpada e no fenômeno luz utilizados por Fla- vin, há outros aspectos curiosos para o designer da Iluminação. os trabalhos são criados seguindo um sistema definido, ora partindo de um local que o define, como os trabalhos site-specific, ora impondo uma progressão aplicável em di- versos locais. a infinitude da composição e a sistematização e modulação das lâmpadas no espaço configuram um sistema inesgotável. Na cidade de Bridgehampton, nY, podemos apreciar a obra de dan Flavin graças à iniciativa da instituição dIa Foundation, que permitiu que Flavin criasse um museu exclusivamente para abrigar algumas de suas obras, no chamado the dan FlavIn art InstItute.

 

Projeto.cdr

 

Vista da instalação da exposição dan Flavin:

Series and progressions na galeria david zwirner,
m nova York, eua, 2009

 

 

O espaço expositivo foi desenhado por Flavin para abrigar dez obras, sendo nove em luz fluorescente e um desenho, concebidas entre 1963 e 1981. trata-se, portanto, de uma mostra panorâmica de trabalhos individuais do artista. essa é a única montagem existente cujo leiaute foi originalmente concebido por dan Flavin. outras exposições permanentes existentes atualmente – dia:Beacon, em Beacon, nY, e projeto Marfa, no texas – foram realizadas sem o acompanhamento do artista, após a sua morte.

 

luGares da arQuItetura: uM Canto e uMa BarreIra

Ler  a obra de Flavin é relacionar-se com o espaço a partir de referências subjetivas. esse é o ponto de partida para a descrição que faço a seguir de duas obras instaladas no the dan FlavIn art InstItute.

 
A segunda obra na sequência prevista por Flavin na principal sala de Bridgehampton ocupa um canto, um encontro entre paredes perpendicu- lares. ao mesmo tempo em que o ilumina faz com que desapareça. na obra untitled, 1976, Flavin encosta o canto superior do tubo de fluorescente na parte de cima e deixa a parte inferior afastada, como um gesto cotidiano de encostar um objeto em um canto [imagem 2].

 
Uma lâmpada pink de 244 centímetros está voltada para a frente e duas

 
– Uma verde de 61 e uma azul de 183 centímetros – estão voltadas para trás e iluminam o canto da parede. o resultado da luz emitida neste canto cria um triângulo de luz nas paredes adjacentes misturando as cores emitidas e todas as nuances das suas misturas.

 
À medida que observamos a obra vamos lentamente percebendo cores resultantes da mistura das cores originais da lâmpadas. a impressão é de que um arco-íris se forma ao longo do tempo. se fixarmos por mais tem- po o olhar, essas nuances vão desaparecendo, pois, de tanto se fundirem, resultam em uma única cor em degradê. o passeio do olhar sobre a obra revela infinitas combinações de cor, pois a percepção se transforma a cada segundo.

 
Ao utilizar os cantos, segundo texto de tiffany Bell no fôlder de apresentação do Instituto, Flavin integra diretamente sua obra com a arquitetura que construiu. além dos cantos criados por Flavin para abrigar estes trabalhos, foram construídos corredores para as obras, apelidadas de barreiras pelo próprio artista. as barreiras interrompem o corredor construído, deixando frestas para a passagem da luz que inunda a metade oposta. dois trabalhos deste tipo estão em Bridgehampton.

 

Projeto.cdr

 

Untitled, 1976.

Fluorescente pink 244 cm, verde 61 cm e azul 183 cm. dia art Foundation

 

 

O primeiro é untitled (to robert, Joe and Michael), 1975-81, que ocupa um corredor quadrado de 244 X 244 centímetros, altura exata da lâmpada maior, nas cores pink e amarelo. Cada cor está voltada para um lado do cor- redor, formando uma cela em que podemos ver o outro lado do corredor, mas não atravessá-lo.

 

Projeto.cdr

 

Untitled (to robert, Joe and Michael), 1975

Fluorescente pink e amarela, 244 cm. dia art Foundation

 

A cor pink das lâmpadas voltadas para a frente vai, com o tempo, se misturando com o amarelo da luz por trás da barreira. aos poucos a visualização do pink vai se transformando em salmão ou pêssego, que passa a ser nossa resultante da interação do pink com o amarelo.

 
Sem olhar diretamente para as lâmpadas, mas só para sua reflexão, é a cor pêssego que resulta nos anteparos, paredes e teto. tão forte quanto a obra, são as reflexões da luz por todo o espaço expositivo. a luz extrapola o espaço ocupado pela obra invadindo toda a sala e promove a interação entre reflexões, constituindo um jogo cromático diferente em cada lugar. Quanto mais perto da obra, mais intensa é a aparência da cor da lâmpada. À medida que o observador se afasta, a intensidade diminui, tornando a cor mais suave e suscetível à invasão das cores emitidas pelas lâmpadas vizinhas. A distância em que o observador se encontra é um dado que altera totalmente a percepção da obra. observando de longe, a obra aparece como uma tela de projeção emissora de imagens. de perto, o observador se sente encapsulado pela cor emitida, e a frequência da luz exerce uma espécie de força à qual estamos submetidos. ao mesmo tempo que atrai, incomoda, tamanha a intensidade com que a luz emitida atinge nossos olhos e corpo.

 

Um Novo Espaço Construído Através da Luz

 

após mais de 50 anos desde que Flavin começou a produzir suas peças com luz (1961), é possível uma análise da relevância que os aspectos trazidos pela obra podem ter na atividade do designer da Iluminação. é através da leitura das obras que o trabalho de Flavin se revela como um grande laboratório de experiências extremamente relevantes para o design da Iluminação.
o espaço se compõe de características físicas específicas do lugar soma- das a fatores que alteram sua percepção. e um desses fatores é a luz. sendo ela um instrumento poderoso na comunicação subliminar com o observa- dor, Flavin nos mostra como a luz pode trazer informações concretas e sutis não só ao espaço mas à percepção do espaço em relação ao indivíduo. Fla- vin constrói um espaço ideal em que o indivíduo, nele inserido e sob seus domínios, o altera e é alterado por ele.
portanto, o espaço da arte produzida por Flavin soma ao espaço concreto a impressão da luz no espaço e, principalmente, a impressão na luz no observador que, sob seus domínios, também produz um novo espaço. é no território da produção do espaço através da luz que o designer da Iluminação trabalha. daí a pertinência de conhecer uma obra tão rica em experiências com a luz como é a de dan Flavin.

 
5. reconstrucao-do-espaco
Download do projeto

 

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